Pela música, refugiados angolanos dão voz a uma história de dor, saudade e superação – Sempre Família

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Pela música, refugiados angolanos dão voz a uma história de dor, saudade e superação   Sempre Família
Pela música, refugiados angolanos dão voz a uma história de dor, saudade e superação Sempre Família

“Na África, as pessoas sofrem muito e veem na arte um refúgio. Elas alimentam o espírito por meio da música e clamam a Deus para trazer a paz à terra”, conta o angolano Jacob Cachinga, de 29 anos, membro do coral Vozes de Angola. Foi por meio da música que Jacob e seus amigos do grupo – todos com um tipo de deficiência visual – encontraram consolo para a saudade que sentiam de seu país natal, de onde vieram há cerca de 20 anos, refugiados da guerra civil.

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Jacob lembra que ele e outras 23 crianças e adolescentes com algum tipo de deficiência visual foram recrutados em 2001 para participar de um programa do governo de Angola que traria crianças como eles para o Brasil, para participarem de um programa de bolsa de estudos. “Em Angola as pessoas com deficiência ficavam isoladas como se não tivessem utilidade”, disse ele ao Sempre Família. “Nossas mães viram ali uma oportunidade de nos dar uma vida melhor e por isso deixaram a nossa tutela com o governo para podermos usufruir das bolsas de estudo fornecidas por esta parceria. A intenção era que, no futuro, voltássemos qualificados para contribuir com nosso país”, lembrou.

Cido Marques/FCCCido Marques/FCC

As crianças com idades entre 7 e 14 anos foram então levadas para Luanda, a capital de Angola, e vieram para o Brasil sem suas famílias. O destino era Minas Gerais, inicialmente, mas por conta de complicações no local que os abrigava, os meninos e meninas foram divididos em dois grupos: um que foi para Florianópolis e outro, o de Jacob, para Curitiba. Ele e mais 10 amigos foram acolhidos no Instituto Paranaense de Cegos, lugar onde puderam se desenvolver. Lá eles foram alfabetizados, aprenderam o braile, além de outras técnicas para viverem bem em sociedade, apesar de suas limitações. “Sempre nos disseram que os curitibanos eram sérios demais, mas aqui encontramos somente amor”, contou o cantor.

E foi nesse tempo em que moraram no instituto, que o coral se formou. “Um dia fomos convidados para almoçar em uma chácara e as meninas começaram a se lembrar de suas famílias. Para expressar a saudade que sentiam, começaram a cantar. É assim que nosso povo encontra refúgio durante a dor”, recordou Jacob. “Então nós, os meninos, fomos até elas e começamos a cantar junto, encaixando nossas vozes nos espaços que precisava. Aos poucos, várias pessoas estavam perto de nós, ouvindo nossa canção”.

Um lamento de saudade, a música daquelas crianças tocou o coração dos presentes que os incentivaram a mostrar seu talento para o mundo. Inicialmente chamado de Pequenos Cantores de Angola, o grupo teve sua primeira apresentação no mais tradicional teatro de Curitiba: o Guaíra. Dali em diante eles nunca mais pararam, nem mesmo quando complicações vindas de seu país de origem ameaçaram a permanência deles no Brasil.

Um refúgio em meio a toda adversidade

Em 2009 o governo de Angola pediu que os 24 jovens voltassem para casa, como havia sido acordado em 2001. Mas agora alguns deles já estavam no Ensino Médio e outros até na faculdade. “Os dois grupos então se organizaram para pedir para ficarmos e continuarmos os estudos. O governo angolano não queria e contamos com a ajuda do governo do estado do Paraná para permanecer. Foram dias difíceis, mas conseguimos”.

Só que em 2015, novamente eles foram convocados a voltar a Angola e desta vez perderam a ajuda financeira que recebiam por meio do programa. Foi necessário, então, buscar ajuda mais uma vez, o que eles encontraram em um programa de televisão. Com a visibilidade que ganharam, eles conseguiram o visto de permanência e as faculdades em que estudavam lhes deram bolsas de estudos. Além disso, com o dinheiro recebido o grupo conseguiu alugar uma casa em Curitiba até que pudessem se sustentar com seu trabalho. A música mais uma vez foi o refúgio deles, já que por conta da deficiência visual, nem todos conseguiram trabalho imediato e então o coral se tornou uma fonte de renda.

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Agora, não mais pequenos, mas sim adultos, eles decidiram se chamar Vozes de Angola. “E esse nome tem ainda mais significado porque inclui muita coisa. Não era só mais a música, mas a partir daquele momento começarmos a dar voz a tudo o nosso povo vive até hoje na África”, disse Jacob, ao lembrar que todos os cantores do grupo têm uma deficiência visual devido aos anos de descaso do governo angolano durante a guerra civil. “Entre nós há quem seja cego por causa das granadas e outros por causa do Sarampo. O governo não dava estrutura para que a gente vivesse bem nossa infância. Por isso cantamos também a nossa dor daquele tempo”.

Agora todos os sete integrantes do coral concluíram a graduação e permanecem morando juntos em Curitiba, formando uma grande família. Eles encontraram melhores condições de vida, como haviam sido instruídos ainda pequenos ao saírem de seus lares, mas ainda não voltaram à sua terra natal. Jacob conseguiu visitar a mãe em 2016 e o que viu ao chegar em sua cidade 15 anos depois, o entristeceu. A mãe está com a saúde debilitada e ele pretende trazê-la ao Brasil para se tratar e aí então retornar a Angola. Jacob faz mestrado, é professor de dança e se mantém no Vozes de Angola.

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