PSL olha para Moro | VEJA.com

0
3
PSL olha para Moro
PSL olha para Moro

O ministro da Justiça, Sergio Moro, visita a sede da Polícia Federal, no centro da cidade. (Fernando Frazão/Agência Brasil)

A dura crítica do presidente da Câmara Rodrigo Maia, ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, a quem atribui permanente coação sobre as instituições democráticas, é um divisor de águas no conflito institucional em curso no país.

A declaração de Maia sublinha o momento em que a percepção política é a de que o clamor público pela punição da corrupção, talvez já parcialmente saciado com as centenas de prisões da Lava Jato, não represente mais uma blindagem absoluta de seus protagonistas a eventuais excessos na condução das investigações.

O presidente da Câmara deixa claro que o Legislativo sentiu-se acuado pela operação, possivelmente por ter parte de sua ação investigativa centrada no expediente do caixa-dois, criminalizado pela força-tarefa mesmo quando ainda um delito eleitoral. Isso estendeu o conceito de corrupção a quase todo o Legislativo, desmoralizando a classe política pela isonomia penal.

Maia também vocaliza o sentimento do Supremo Tribunal Federal, ou de parte deste, vulnerável ao clamor público produzido pela publicidade dada pela Lava Jato aos seus atos e ações, com os procuradores capturando o sentimento da população pelo fim da impunidade. E do Executivo, na medida em que o presidente Bolsonaro alia-se claramente à causa desde que as investigações foram direcionadas para a sua família.

A investida do Ministério Público sobre a família presidencial abriu um fosso na relação de Moro com o presidente da República, e deste com seu partido, o PSL, por conta da aliança com o STF para conter o avanço sobre o filho e senador Flávio Bolsonaro.

Na avaliação parlamentar Moro é, hoje, o principal adversário de Bolsonaro, com reais pretensões a sucedê-lo. Sua popularidade condena Bolsonaro a conviver com o inimigo eleitoral, cuja resiliência no cargo revelaria determinação de suportar toda e qualquer provocação até que chegue o tempo político de admitir-se candidato à presidência da República.

Não por outra razão, o PSL tomou a iniciativa de provocar a ruptura com o presidente da República, antes do primeiro ano de mandato, o que é inusual na política.

Comprar a briga com os filhos do presidente, Flávio e Eduardo, como o fez o líder do partido no Senado, Major Olímpio, provavelmente reflete uma percepção de que o discurso anticorrupção vitorioso na campanha foi abandonado por Bolsonaro, mas permanece na voz do ministro da Justiça e Segurança Pública. O mote formal para a desavença é a CPI da Lava Toga, à qual Bolsonaro já não pode se alinhar.

O PSL não tem necessariamente o objetivo de consolidar a ruptura com o presidente da República, embora isso possa ocorrer, mas enquanto o fustiga, acena para Moro como recado de que o ministro passa a ser também referência eleitoral do partido. Se não se sustentar em longo prazo, o movimento serve ao partido nas eleições municipais do próximo ano.

Na condição de político, que é como o Legislativo o enxerga, Moro está exposto a desgastes, no enredo que tem origem na sua decisão de trocar a toga pelo ministério. Como potencial candidato –do que parlamentares não têm dúvida -, a tendência é de recrudescimento do combate que trava com a classe política em razão da Lava Jato, cujo modelo investigativo tenta consolidar na condição de ministro.

Ao estrear com a tentativa de aprovar uma legislação que, em parte agrava a criminalidade, mas em parte tenta consolidar os caminhos heterodoxos trilhados pela Lava Jato, Moro começou a experimentar os revezes a que estão habituados os veteranos do jogo político.

Não conseguiu vingar suas propostas e, mais que isso, viu aprovadas outras de iniciativa do Legislativo, que tornam mais rígidas as punições para investigadores e julgadores, materializadas na Lei de Abuso de Autoridade.

O que se tem, portanto, é uma campanha presidencial antecipada (antes mesmo da municipal do ano que vem), em que há candidatos declarados, como os governadores de São Paulo, João Dória, e do Rio, Wilson Witzel, outros ocultos e outros em negação.

Já o presidente Bolsonaro tem a sua inflexão na intensidade do discurso anticorrupção cada vez mais visível. Seu rompimento com o governador do Rio, Wilson Witzel, foi determinada mais pela convicção de que o ex-aliado estimula o Ministério Público do Rio a prosseguir na investigação de Flávio Bolsonaro.

 

João Bosco Rabello é jornalista do site Capital Político (capitalpolitico.com)

Conteúdo Bloqueado

Ajude-nos a crescer! Compartilhe esta matéria com seus amigos no Facebook clicando no botão abaixo para desbloquear o conteúdo automaticamente. Compartilhar é grátis!

Clicando no botões você concorda com os termos de uso e política de privacidade