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Coluna – Plantando a semente

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A cada Paralimpíada, o Brasil se firma como potência no movimento do esporte adaptado. Isso não se evidencia apenas pelo quadro de medalhas dos Jogos, no qual a delegação do país foi top-10 nas últimas três edições. O interesse de outras nações pela experiência brasileira no paradesporto é uma forma de reconhecimento. As colunas desta e da próxima semana abordarão dois exemplos diferentes desta “exportação” de conhecimento.

O primeiro é Márcio André Ferreira. Aos 38 anos, ele é técnico de futebol de cinco (para deficientes visuais) no Sport Clube Conimbricense, na cidade portuguesa de Coimbra. Trata-se da única equipe da modalidade no país. Natural de Campina Grande (PB), o treinador chegou à Europa em junho do ano passado, inicialmente para um projeto da Associação Nacional de Desporto para Deficientes Visuais (Anddvis) para fomento da modalidade, que caiu no esquecimento em Portugal após o fim da seleção, em 2005.

“Sempre trabalhei com futebol, futsal e também academia. Tinha um colega que morava em Portugal e falava sobre as qualidades daqui, em questão de segurança e organização financeira. Trabalhei a ideia [de um projeto de futebol de cinco] e fiz contato com vários países. Mandei propostas para Austrália, Canadá, Estados Unidos e alguns asiáticos. Depois de muita insistência, veio resposta de Portugal. Por coincidência, eles [Anddivs] tinham submetido um projeto à Federação Portuguesa de Futebol e estavam esperando uma resposta sobre apoio financeiro. Pedi demissão do emprego e larguei tudo, toda a história que eu tinha na cidade. Fui coordenador de uma escola por dez anos. Fui pela vontade, pelo sonho”, explica o paraibano.

O projeto da instituição portuguesa era voltado à região da capital Lisboa e visava aprimorar a convivência desportiva entre estudantes com e sem deficiência visual. Por meio dele, foi possível reunir jovens interessados em jogar futebol de cinco. O próximo desafio era conseguir um clube que abraçasse a causa. Na terra em que o “desporto-rei” é o futebol, isso poderia parecer fácil. Não foi bem assim.

“Portugal deu muita força ao goalball [modalidade também voltada a deficientes visuais]. Os grandes clubes de futebol investem nesse esporte, trazem brasileiros. É impressionante como eles respiram futebol e não tinham futebol de cinco. Bati na porta de vários clubes, que disseram não ou perguntaram se já tínhamos um time pronto. Então, o Sport Conimbricense abraçou a ideia e cedeu as instalações. A diretora [Zita Alexandre] é uma incansável. No primeiro dia, mostrei alguns pontos de risco na quadra, que poderíamos melhorar com o tempo. No outro treino, estava tudo pronto”, conta Márcio.

A equipe do Conimbricense reúne cerca de 25 jogadores oriundos diferentes regiões do país e se encontra uma vez por mês para treinar em Coimbra. Para comandar a atividade, Márcio tem pela frente quase nove horas de viagem a partir de Vila Real de Santo Antônio, cidade onde vive, no extremo sul de Portugal. A aprovação de um projeto de apoio financeiro ao futebol de cinco do clube deve ampliar essa rotina para duas sessões mensais de treino, sendo uma delas em Lisboa, a quatro horas de Vila Real.

“Saio de Vila Real às 18h e chego às 3h em Coimbra. No início, ficava na rua, no frio, esperando uma cafeteria abrir. Tomo café e vou para o clube, onde durmo um pouco até a hora do treino, que começa às 10h, 11h e vai até 14h, 15h. De lá, vou à rodoviária e depois para casa, pois tenho expediente no dia seguinte”, descreve o paraibano, que também trabalha em restaurantes desde que chegou a Portugal, além de atuar como personal trainer.

Márcio deseja que o trabalho em Coimbra seja a semente para a recriação da seleção portuguesa de futebol de cinco, e sonha também em ser o treinador da equipe rubro-verde para, quem sabe, enfrentar o Brasil. Se der certo, ele poderá reencontrar um amigo de longa data: o também paraibano Fábio Vasconcelos, técnico da seleção brasileira, que faturou quatro vezes a medalhas de ouro paralímpica e representa hoje a maior força da modalidade no mundo.

“Eu fui nutricionista e técnico da Apadevi [Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Visuais da Paraíba], de forma voluntária, por onde tenho gratidão eterna. O Fábio deu grande força em relação à parte tática e técnica. [No futebol de cinco] A gente tem de criar muita coisa adaptada ao deficiente visual. Trabalhei com o Fábio por oito anos na escola onde era fui coordenador”, lembra o treinador do Conimbricense. “O clube tem ideia de, no ano que vem, fazer um mini-torneio com seleções de alguns continentes e fazer convite ao Brasil, trazer o Ricardinho, que é o maior nome da modalidade em todos os tempos. O nível da gente ainda não é tão bom, mas despertaria o interesse”, projeta.

A criação da seleção, porém, depende que órgãos como a Anddvis e a Federação Portuguesa de Futebol formalizem o time. Segundo Márcio, a Federação Internacional de Esportes para Cegos (IBSA, sigla em inglês) pretende financiar amistosos de futebol de cinco entre países vizinhos e a realização de um torneio na Suécia, em julho do próximo ano, com equipes que estão iniciando na modalidade.

“Para isso, é preciso existir a seleção. Se for do meu merecimento estar a frente, vou aceitar, realizar o sonho e, quem sabe, encontrar o Fábio”, conclui Márcio.



Fonte: Agência Brasil

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